terça-feira, 13 de novembro de 2007

Almoço

Estavam os quatro à mesa. Olhos baixos. Silêncio....

Ouvia-se apenas o tilintar dos talheres e as vozes misturadas de muitas pessoas que almoçavam completamente alheias àquela situação.

Ninguém ousava levantar os olhos, ao passo que no fundo, nenhum deles sabia realmente o que estava se passando.

Mesa para quatro. Dois e dois. Nenhuma palavra.

Aquele silêncio crescente tornou-se ainda mais incômodo, e no justo momento em que alguém tomou coragem para quebrá-lo, ouviu-se na mesa o som de um suspiro. Um suspiro dolorido e molhado por lágrimas.

Justamente ela. Ela que sempre fora a mais forte, dura, decidida, muitas vezes até radical...

Mas o que estava acontecendo? Qual era o motivo de toda aquela tristeza?

À menor menção de uma pergunta, ouviu-se com rispidez:

"Eu não quero falar sobre isso."

Novamente o silêncio.

Os outros três baixaram novamente os olhos para suas refeições. Estrogonfe, batatas, salada...
Nenhum deles tinha mais fome, mas enquanto comiam, ocupavam suas bocas sedentas por respostas.

Mastigavam e engoliam [empurravam] a comida, enquanto um turbilhão de idéias, imagens, certezas indiscretas e incertas passeavam em suas mentes .

Neste momento todos pensavam: "os amigos nessas horas não servem pra nada..."

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

ainda

meus olhos te seguem desapercebidos
quando não quero te ver
meu olhar, indiscreto repousa em você

radar do seu olhar fugidio
da sua alegria eufórica, triste, às vezes

desperta minha curiosidade
aguça minha vontade
distante... saudade

tento te ler sem te invadir
tento te ter, mas sem insistir

sentida, me recolho em minha covardia
aguardando então o momento
de te ver desarmado

calculando milimetricamente cada linha
cada palavra [uma arma]
cada sentimento

para te comer pelas beiradas
ou me fartar antes da hora
[já passada]
e desistir bulimicamente

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

poeminha angelical

discutindo sobre o sexo dos anjos
conclusão:
deve ser divino!

Depois do Jazz, o Rock e o Forró - Parte II

...

Diálogo de fim de noite:

- vamos pra outro lugar?
- anh?
- tomar a saideira.
- ah, onde?
- posto de gasolina.
- calma aí, né, galera?! a coisa tá assim?
- não, sô! na loja de conveniência.
- desce a saideira!
- duas!
- duas pra cada um.
- quatro!
- quatro saideiras?
- não quatro horas, socorro!
- porque? ta ruim aqui?
- não, mas levanto daqui duas horas!
- ah, então ainda tem tempo!
- socorro!
bibibibi!
bibibibi!
bibibibi!
- eu ainda quebro esse despertador!

Depois do Jazz, o Rock e o Forró - Parte I

Música alta e muita cerveja
encorajando o contato, a soltura, o enlace, o desembaraço
pés arrastando no soalho liso
cabelos voando, e a saia subindo a cada giro
a cada passo, um sorriso
muitos sorrisos e um par de olhos
aqueles olhos

Corpos dançando, rodando, quase voando

às vezes caindo
corpos abraçados, suados, embriagados, enamorados
entre nomes e apelidos,
Kiko, Catatau, Flô, Tchuca, Bombom, Vanessa da Mata
te descubro homônimo...

fim de noite, me despeço
você se vai, eu permaneço
...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Testemunho

Ela estava seca. Seca naquele tempo infernal.
Seca. Seca sim! Sem vida...
A cada dia que se seguia eu a via empalidecer, murchar, morrer...

Entristeceu-me vê-la assim.
Parece que um pouco do colorido da minha vida se esvaiu junto com ela naqueles dias de calor intenso.
Fez-se sertão ante meus olhos.

Aquela que acolhia meu sono, minhas idéias e, às vezes, minha solidão agora espetava, arranhava...

Como faz diferença um dia de chuva!
Qual não foi minha surpresa, depois de vê-la praticamente morrer, ser testemunha de seu renascimento.
Acompanhar sua evolução dia após dia.

Fez-se vida novamente.
E meu lugar continua lá, ao pé da mesma árvore, onde me sento, leio, estudo e até durmo deitada naquela grama, há algumas semanas sem vida e hoje completamente verde, com cheirinho de terra molhada e com novos ramos surgindo a cada dia e a cada chuva.

Abençoada seja esta chuva!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Póstuma

Não sou uma pessoa aficcionada pela idéia da morte, nem uma romântica, no sentido literário da palavra, daqueles que morriam aos 23 anos com tuberculose e faziam Ode à Morte. Apenas estou impressionada.
Nunca tive muito contato com a morte durante minha vida. Sempre pude me poupar desses momentos, mas ultimamente ando refletindo muito sobre essa força que tem me cercado. Na minha opinião, a única força que consegue ser mais forte do que a própria vida.
Em 15 dias, aproximadamente, morreram 6 pessoas próximas a mim de alguma forma. Ainda assim consegui me manter à distância, pois essas mortes não me atingiram diretamente, mas sim a pessoas ligadas a mim. Com isso, pude observar de forma distanciada como esse evento atinge as pessoas, fere, abala suas estruturas, e, ao mesmo tempo, de forma até paradoxal, como o mundo em volta segue normalmente. Falo isso até por mim mesma.
Não tenho nenhuma conclusão, porque na verdade nem sei qual é o meu conflito, precisava apenas derramar algumas palavras para confortar o meu coração. Ou melhor, para aquietar a minha cabeça ainda muito infantil para esse assunto.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

in(f)X(t)erno

- não quero mais!
- será que posso?
- não querer?
- não, querer...
- anh?
- não é mais isso
- mas não deixa de ser também
- mas quero que seja outra coisa
- então fala
- não posso falar
- porque não?
- porque não posso chegar soltando assim!
- mas assim, vai parecer que é só isso
- mas não é
- se você não falar, o que vão pensar?
- não sei, mas não têm que pensar nada
- ah, não?
- bem, na verdade, têm sim.
- nossa, que difícil!
- é, eu sei. pra mim também é.
- ah, facilita as coisas, vai.
- como? se é tão difícil até pra mim.
- fala de uma vez que não é nada disso.
- será?
- é. vai.
- acho que não. mais fácil demonstrar, não?!
- se vc não falar, nunca vão saber!
- será?
- ai, vai começar de novo...
- vamos tomar uma cerveja?
- não muda de assunto.
- não to mudando!
- como, não tá? o que a cerveja tem haver com isso?
- é só isso! vamos tomar uma cerveja?
- você tá querendo acabar com o assunto.
- às vezes a gente tem que recusar à alguma coisa que quer pra se poupar.
- ah! agora eu que falo: Vamos tomar uma!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

REFLEXOS E REFLEXÕES

Diga aí­ amigo...
Como vai você?
Estou aqui contigo
Você também me vê

Às vêzes sou seu clone
E você é o meu
Não temos o mesmo nome
Mas nossa vida se perdeu

Em encontros e desencontros
Do mesmo sopro
Que atravessa eu e você
Se estou contigo
É porque estás comigo
E nós não podemos nos perder

(hoje deixei que o Moska falasse por mim...)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Suas tão minhas...

Hoje, conheci alguém que já conhecia
alguém que convivia, mas que nunca me havia sido apresentado dessa forma
alguém que me tocou profundamente com suas palavras, sem ainda ter a idéia de que as li.

Mas de que valem as palavras, se não para tocar os outros? - muito mais até do que a quem as escreve, às vezes...
Se é para isso que elas servem, você fez valer as suas.

Hoje, conheci alguém que escreve como eu queria escrever
que fala de coisas que eu queria dizer
que fala de mim, sem ao menos saber.

Hoje, me deliciei em percorrer suas linhas, suas palavras, seus pensamentos, suas confidências, seus escritos, muitas vezes quase tão meus.

Muito prazer!

(escrito após ler clandestinamente os escritos de um colega...)